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Vol. 12, N.º 8
5 de agosto de 2026
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Artigo original · Reprodução assistida

Transferência única de blastocisto vitrificado versus a fresco em mulheres de 35 a 40 anos

Ensaio clínico randomizado multicêntrico com 1.184 participantes

Marina Vasques, Otávio Belmiro, Clara Sanches, Rita Amorim, Grupo de Estudo VITRA

5 de agosto de 2026 · Vol. 12, N.º 8 · 12 min · DOI 10.55555/tfc.2026.0801

Entre mulheres de 35 a 40 anos em primeiro ciclo, a transferência de embrião vitrificado resultou em taxa de nascido vivo semelhante à da transferência a fresco, com menos síndrome de hiperestímulo.

Resumo

Contexto

A congelação total do ciclo tornou-se prática frequente, mas o benefício em mulheres na faixa dos 35 aos 40 anos permanece incerto. Comparamos transferência única de blastocisto vitrificado com transferência única a fresco.

Métodos

Randomizamos 1.184 mulheres em 14 centros brasileiros, na proporção 1:1, para transferência de um único blastocisto vitrificado (n = 593) ou a fresco (n = 591). O desfecho primário foi nascido vivo após a primeira transferência. Desfechos secundários incluíram síndrome de hiperestímulo ovariano, parto pré-termo e pré-eclâmpsia.

Resultados

Nascido vivo ocorreu em 34,1% no grupo vitrificado e em 32,4% no grupo a fresco (diferença de 1,7 ponto percentual; IC 95%, −3,7 a 7,1; P = 0,54). Síndrome de hiperestímulo moderada ou grave ocorreu em 0,8% versus 3,9% (RR 0,21; IC 95%, 0,09 a 0,49). Pré-eclâmpsia foi mais frequente no grupo vitrificado (6,2% vs. 3,1%).

Conclusões

Nesta população, a vitrificação não aumentou a taxa de nascido vivo, mas reduziu de forma consistente o hiperestímulo. A escolha pode ser individualizada pelo risco de resposta exagerada. (Registro VITRA-2023.)

Introdução

A criopreservação por vitrificação alterou a lógica do ciclo de fertilização in vitro. Ao separar a estimulação ovariana da janela de implantação, a técnica permitiu que o endométrio fosse preparado sem a influência dos níveis supra-fisiológicos de estradiol da fase de estímulo. A hipótese de que essa separação melhoraria a receptividade endometrial motivou a adoção ampla da estratégia de congelar todos os embriões.

Os ensaios que sustentaram essa adoção, no entanto, concentraram-se em mulheres com resposta ovariana alta ou com síndrome dos ovários policísticos, nas quais o ganho é atribuível sobretudo à prevenção do hiperestímulo. Em mulheres na faixa dos 35 aos 40 anos — o grupo que mais cresce nos serviços de reprodução assistida no país — os dados permaneciam escassos e heterogêneos.

Métodos

O ensaio foi conduzido em 14 centros, entre março de 2023 e novembro de 2025. Foram elegíveis mulheres de 35 a 40 anos, em primeiro ciclo de fertilização in vitro, com pelo menos um blastocisto de boa morfologia no quinto dia de cultivo. Excluímos casos de fator uterino grave, cariótipo alterado em qualquer dos parceiros e uso de óvulos doados.

A randomização foi centralizada, estratificada por centro e por idade (35 a 37 anos; 38 a 40 anos). Pela natureza da intervenção, participantes e equipe assistencial não foram cegados; o comitê de adjudicação de desfechos permaneceu cego à alocação.

Figura 1. Probabilidade acumulada de nascido vivo

0%15%30%45%60%0transferênciavitrificadoa fresco
Curvas de incidência acumulada ao longo de três transferências consecutivas, por grupo de alocação.

Figura 2. Nascido vivo em subgrupos pré-especificados

35 a 37 anos38 a 40 anosAMH < 1,0 ng/mLAMH ≥ 1,0 ng/mLPrimeiro cicloCombinado0,60,811,31,6risco relativo (IC 95%)
Risco relativo com intervalo de confiança de 95%. Valores à direita de 1,0 favorecem a transferência de embrião vitrificado.

Resultados

Das 1.184 participantes randomizadas, 1.156 (97,6%) completaram a primeira transferência. As características basais foram equilibradas entre os grupos, com idade média de 37,4 anos e hormônio antimülleriano mediano de 1,3 ng/mL.

A taxa de nascido vivo após a primeira transferência foi de 34,1% no grupo vitrificado e 32,4% no grupo a fresco. A análise por protocolo produziu estimativas semelhantes. A diferença mais expressiva entre os grupos ocorreu na segurança da estimulação: síndrome de hiperestímulo moderada ou grave foi cinco vezes menos frequente no grupo vitrificado.

Entre os desfechos obstétricos, observamos maior frequência de pré-eclâmpsia e de recém-nascidos grandes para a idade gestacional no grupo vitrificado, achado consistente com o descrito em coortes de ciclos com preparo endometrial artificial.

Discussão

Nossos resultados sugerem que, fora do contexto de resposta ovariana exagerada, a vitrificação universal não entrega o ganho de eficácia que motivou sua difusão. O benefício documentado é de segurança, não de desfecho reprodutivo.

A leitura prática é de individualização: em mulheres com contagem de folículos antrais elevada ou estradiol alto no dia do gatilho, a estratégia de congelar tudo permanece defensável. Em mulheres com reserva ovariana reduzida — situação comum nesta faixa etária — a transferência a fresco evita uma etapa adicional de manipulação sem prejuízo mensurável.

O estudo tem limitações. A ausência de cegamento pode ter influenciado decisões clínicas na condução da gestação. Além disso, o desfecho primário restringiu-se à primeira transferência, o que subestima o resultado cumulativo do ciclo.

Referências

  1. Sanches C, Belmiro O. Vitrificação e receptividade endometrial: o que os ensaios realmente mediram. Rev Bras Med Reprod. 2024;41(2):88-97.
  2. Amorim R, Vasques M. Preparo endometrial artificial e risco hipertensivo na gestação. Cad Reprod Hum. 2025;12(4):210-9.
  3. Grupo de Estudo VITRA. Protocolo e plano de análise estatística do ensaio VITRA-2023. 2023.
  4. Belmiro O, et al. Contagem de folículos antrais como preditor de resposta em primeiro ciclo. TFC. 2025;11(9):402-11.

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