A ressecção de lesões profundas antes do ciclo não melhorou a taxa de nascido vivo, exceto no subgrupo com endometrioma bilateral e dor incapacitante.
Contexto
A indicação cirúrgica antes da fertilização in vitro em endometriose profunda divide os serviços. Avaliamos o efeito da ressecção prévia sobre o nascido vivo.
Métodos
Coorte prospectiva multicêntrica com 742 mulheres com endometriose profunda confirmada por ressonância, acompanhadas por 24 meses. Comparamos ressecção prévia (n = 318) com abordagem direta ao ciclo (n = 424), com ajuste por escore de propensão.
Resultados
Nascido vivo cumulativo em 24 meses: 48,2% com cirurgia prévia e 51,6% sem cirurgia (RR ajustado 0,94; IC 95%, 0,82 a 1,07). No subgrupo com endometrioma bilateral e escore de dor acima de 7, a cirurgia associou-se a maior taxa (54,0% vs. 39,1%).
Conclusões
A cirurgia prévia sistemática não se justifica. A decisão deve ser guiada pela dor e pela anatomia, não pela expectativa de ganho reprodutivo.
Introdução
A endometriose profunda infiltrativa acomete de 1% a 5% das mulheres em idade reprodutiva e responde por parcela expressiva das consultas por infertilidade. A cirurgia resolve dor com eficácia demonstrada; o efeito sobre a fertilidade é menos claro, e o custo de uma ressecção extensa inclui risco de redução da reserva ovariana quando há endometrioma.
Métodos
Recrutamos consecutivamente mulheres com diagnóstico por ressonância magnética em protocolo dedicado. A alocação ao braço cirúrgico seguiu a prática de cada centro, sem randomização; o ajuste por escore de propensão incluiu idade, hormônio antimülleriano, escore de dor, extensão da lesão e paridade.
Figura 1. Nascido vivo cumulativo por subgrupo
Resultados
O tempo mediano entre a cirurgia e o início do estímulo foi de 4,1 meses — atraso que, por si só, consome parte da janela reprodutiva das participantes mais velhas. A queda média do hormônio antimülleriano após ressecção de endometrioma bilateral foi de 0,42 ng/mL.
Discussão
O achado central é que operar antes não melhora o resultado do ciclo na média da população estudada, e a decisão precisa ser deslocada do terreno da fertilidade para o do sintoma. Quando a dor é incapacitante, a cirurgia se justifica por si; o eventual ganho reprodutivo é bônus, não indicação.
Referências
- Duarte H, Régis A. Reserva ovariana após cistectomia de endometrioma. TFC. 2024;10(3):145-53.
- Ferrari P. Ressonância magnética em protocolo dedicado para endometriose profunda. Imagem Pélvica. 2025;7(1):22-31.