Uma leitura crítica de 38 ensaios: o efeito sobre ovulação é real, o efeito sobre nascido vivo permanece indefinido.
Escopo
Revisão narrativa estruturada de 38 ensaios randomizados publicados entre 2005 e 2026, com foco em ovulação, gravidez clínica e nascido vivo.
Principais achados
Metformina aumenta a taxa de ovulação de forma consistente. O mio-inositol apresenta efeito metabólico semelhante com menos efeitos adversos gastrintestinais, porém com ensaios menores e mais heterogêneos. Nenhum dos dois demonstrou, de forma robusta, ganho em nascido vivo quando associado ao letrozol.
Aplicação
A indicação mais defensável é metabólica, não reprodutiva.
Por que revisitar o tema
A síndrome dos ovários policísticos é a causa mais comum de anovulação. O letrozol consolidou-se como primeira linha para indução da ovulação, e as medicações sensibilizadoras de insulina passaram a ocupar um papel adjuvante mal definido — prescritas com frequência, sustentadas por evidência que raramente é lida na íntegra.
O que os ensaios mostram
Nos estudos com desfecho de ovulação, o efeito é reprodutível. Quando o desfecho avança para gravidez clínica, os intervalos de confiança se alargam. Quando chega a nascido vivo, a maioria dos ensaios simplesmente não tem tamanho para responder.
Essa degradação progressiva da certeza ao longo da cadeia de desfechos é o padrão mais importante desta literatura, e é o que costuma se perder na tradução para a prática.
Figura 1. Ovulação: metformina versus placebo
O que fazer na consulta
Tratar o componente metabólico quando ele existe, com alvo metabólico. Induzir ovulação com letrozol. Não prometer ganho reprodutivo que a evidência não sustenta.
Referências
- Bastos C. Letrozol como primeira linha: dez anos depois. TFC. 2023;9(5):301-9.
- Leão R. Mio-inositol: farmacologia e limites dos ensaios disponíveis. Endocr Reprod. 2025;18(2):77-90.