Transferir embriões mosaicos deixou de ser exceção. O consentimento, porém, continua escrito para um mundo binário.
Durante quase uma década, o teste genético pré-implantacional devolveu ao clínico um veredito de duas casas: euploide ou aneuploide. O resultado intermediário existia, mas era tratado como ruído técnico e descartado antes de chegar ao casal.
A acumulação de nascimentos saudáveis a partir de embriões classificados como mosaicos desfez essa arrumação. Hoje o laudo traz percentuais, faixas e categorias de risco. A conduta acompanhou parcialmente: muitos serviços já transferem mosaicos de baixo percentual quando não há euploide disponível.
O que não acompanhou foi o documento que a paciente assina. O termo de consentimento continua descrevendo um exame que classifica embriões em normais e anormais — uma descrição que já não corresponde ao que o laboratório entrega nem ao que a equipe faz.
A correção não é burocrática. Um consentimento que descreve mal o exame produz uma expectativa que a clínica não pode cumprir, e transfere para o momento mais frágil do tratamento uma conversa que deveria ter acontecido antes da punção.
Referências
- Lins V. Classificação de mosaicismo: convergência entre laboratórios. TFC. 2025;11(11):512-8.